[ANSOL-geral] Fwd: [hv] Pirataria Informática / A outra face da moeda

Bruno Miguel brunoalexandremiguel gmail.com
Segunda-Feira, 5 de Julho de 2010 - 18:59:03 WEST


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From: LINUXKAFE <mail  linuxkafe.com>
Date: 2010/7/5
Subject: [hv] Pirataria Informática / A outra face da moeda
To:



A outra face da moeda
Segunda-feira, 05 de Julho de 2010, 18:07 Sem Comentários

No passado dia 26 de Junho, o programa Falar
Global<http://sic.sapo.pt/online/noticias/programas/falarglobal/> da
SIC Noticias focou-se no tema da “Pirataria Informática”, onde se esperaria
uma abordagem jornalística mais abrangente que debatesse todos os pontos de
vista sobre este vasto tema. A realidade seria um pouco diferente.

No inicio do programa o apresentador começa imediatamente a divulgar as
supostas perdas da “pirataria”, na ordem de 174 milhões de euros segundo a
Associação Portuguesa de Software (ASSOFT), indicando que se iria “dar rosto
às vítimas da pirataria” na peça seguinte.

 A peça começa com uma propaganda americana indicando que a realização de
“downloads ilegais” resulta na escassez de dinheiro para pagar os empregos
de muitas pessoas, em primeiro plano os empregos dos que participam na
criação de filmes. É realmente muito nobre e comovente, mas esquecem-se de
explicar como se realiza a substituição da experiência de ida ao cinema com
o *download*. As muitas lotações esgotadas e os orçamentos cada vez maiores
na realização de filmes parecem contradizer estas afirmações, mesmo em
altura de crise onde surgem filmes que batem recordes de audiência e
arrecadam lucros enormes somente em salas de cinema.

Analisando os dados das perdas da industria nacional, onde se afirma que
esta foi lesada em 174 milhões de euros com a afamada “pirataria
informática”, indicando que 54% do software existente em Portugal é
“pirata”, em que é que se baseiam para tal afirmação? Qual é a amostra? 10
pessoas, 100 pessoas, 10 milhões de pessoas? Quem é que no seu perfeito
juízo iria indicar que usa software pirata descaradamente? Hoje em dia a
maior parte do software comercial existente possui uma concorrência directa
constituída por produtos idênticos de distribuição livre e/ou gratuita. Como
se pode afirmar tão acertadamente que X euros são perdidos devido à razão Y,
quando os produtos não são escoados na sua totalidade? Tal é a dificuldade
para realizar o cálculo que nem as associações de software se entendem. Por
exemplo, a Business Software Alliance aponta o valor da “pirataria” em
Portugal em 40%, ou seja 14 pontos percentuais abaixo do valor reclamado
pela sua congénere Portuguesa.

 <http://partidopiratapt.eu/wp-content/uploads/2010/07/windows-shot.png>Os
mesmos dados referem que desses supostos 174 milhões de euros cerca de 35
milhões são hipotéticas perdas do estado em impostos não cobrados. Trata-se
de um estado que não tem pudor nenhum em gastar em concreto cerca de 130
milhões de euros a mais nos programas do E-escolas e E-escolinhas só nos
pacotes do Windows e do MS
Office<http://blog.softwarelivre.sapo.pt/2010/03/03/generosas-doacoes/>
em
vez de se concentrar nas alternativas de software aberto e livre. Se o
objectivo é educar as pessoas para não se usar software pirata então o
melhor seria começar a educá-las nas alternativas existentes quando os seus
orçamentos não lhes permitem ter as opções comerciais?

Como já foi referido <http://partidopiratapt.eu/arquivos/609>, a falência
dos clubes de vídeo não é exclusiva dos afamados “downloads ilegais”, o
problema remonta a um modelo de negócio dos anos 80/90 que actualmente tem
vindo a deixar de fazer sentido por se encontrar “estagnado no tempo”.
No entanto a culpa é apontada na sua íntegra aos *downloads *e à Internet
por variadas associações que infrutuosamente se preocupam em defender
lobbies e monopólios com a sua pele de cordeiro ao invés de apostarem e
divulgarem novos modelos de negócio que beneficiem realmente tanto estas
entidades, o Estado e os consumidores, respeitando os direitos de cada
cidadão.

Vem também ao ar a discussão da ilegalidade do *upload *ou *download *contando
com uma curta intervenção do nosso representante que muito sucintamente
explica que o famoso “download ilegal” não existe, ficando a ilegalidade em
quem disponibilizou o conteúdo publicamente sem ter permissão ou licença
para tal.
Quem está a usufruir de um serviço disponibilizado, não tem como saber se
quem o disponibiliza está autorizado a fazê-lo ou não e nunca pode ser
responsabilizado por isso. Por exemplo, num serviço de partilha de
multimédia tão conhecido como o Youtube  <http://www.youtube.com>há versões
oficiais e não autorizadas de videoclips e o utilizador não pode ser
responsabilizado se ao fazer uma pesquisa acabar por escolher ver a versão
ilegal do mesmo vídeo. A ilegalidade, ou não, estará sempre do lado de quem
disponibiliza e nunca do lado de quem usufrui.

Quem são os verdadeiros lesados (pelos *downloads *supostamente ilegais)?
Os verdadeiros lesados são os grandes intermediários, as editoras e
associações que vivem à custa de um modelo de negócio obsoleto de exploração
comercial dos artistas e que, por isso mesmo, se organizam em lobbies que
atacam ferozmente qualquer tipo de partilha cultural. A recusa irracional em
aderir aos novos paradigmas tecnológicos permitiu o crescimento não só da
partilha sem fins comerciais, mas também de modelos de negócio comerciais
alternativos ao monopólio destas associações de intermediários obsoletos. As
editoras musicais perderam mercado para plataformas como o iTunes, os
videoclubes tradicionais perderam mercado para as plataformas de IPTV com
video-on-demand, as editoras de software comercial estão a perder o mercado
para o software livre. São estes alguns dos verdadeiros concorrentes dos
modelos de negócio obsoletos, e completamente legais.

O ideal seria perguntar quem são os verdadeiros lesados pelos modelos
obsoletos que condenam inúmeras obras culturais, que perderam o seu
potencial lucrativo, aos arquivos onde são vetadas ao esquecimento e
deterioração irreversível. A resposta é simples, todos nós e a Cultura em
si.

 <http://partidopiratapt.eu/wp-content/uploads/2010/07/tux_pirata.png>Finda
a peça jornalística, inicia-se uma entrevista excessivamente densa com
Manuel Cerqueira, presidente da ASSOFT, afirmando, perto do início, que o *
download *põe em risco o seu computador, como se a propagação de vírus e
outros tipos de software malicioso não pudesse ocorrer por email, pelas
redes sociais ou outros sítios insuspeitos. A solução para esta situação é
simples, e aconselhada para qualquer pessoa que consulta o seu email ou faz
qualquer outra actividade banal recorrendo à Internet: instalar um software
Antivírus no seu computador, e ter cuidado com os dados descarregados da
Internet, observando por exemplo o *feedback *de outras pessoas, semelhante
ao que nós todos deveríamos já realizar passivamente contra as publicidades
e propagandas<http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/Falar+Global/2010/6/a-pirataria-informatica28-06-2010-14594.htm>divulgadas
no dia-a- dia nos mais variados meios de comunicação da actualidade.

Segundo Manuel Cerqueira, existem dois tipos de “Piratas Informáticos”: o
“pirata” que usufrui do *download *para beneficio próprio e o “pirata” que
lucra comercialmente, ambos rotulados de forma igual e inseridos no mesmo
saco. Os únicos piratas aqui são aqueles que lucram ilegalmente com a
comercialização de material sem licença ou direitos para tal, algo que o
Partido Pirata Português (PPP) repudia totalmente!

Um pouco mais à frente admite que só se pode apanhar um pirata informático
com uma invasão da nossa privacidade. Fala-se nos Fornecedores de Serviços
de Internet – os *ISPs *– mas não se explicita que as soluções para estes
impedirem o “download ilegal” passam pela filtragem e monitorização das
acções e dados entre os computadores dos clientes e a Internet, ou seja,
recorrendo a um esquema que envolve um grande investimento por parte do *
ISP *para invadir ilegalmente (actualmente) a privacidade dos clientes.
Passaria a ser mais uma potencial razão para não querer aceder ao seu banco
e efectuar transacções online.

Fala-se em sensibilizar e ensinar às crianças que o *download *prejudica,
quando se deveria pensar e actuar para melhorar a qualidade do nosso ensino
básico e secundário, ao invés de limitar o acesso à cultura e ao mundo,
importantes ao desenvolvimento cognitivo das crianças.
Continua-se cada vez mais a praticar preços exorbitantes no mercado do
áudio-visual, estando estes cada vez mais desajustados face ao salário médio
português. O acesso à cultura deveria ser mais importante que os lucros que
qualquer entidade deseje manter. Tal como a vida, a cultura não deveria ter
preço.

Indica-se, posteriormente, que são poucos os condenados por crimes de
usurpação de direitos de autor. Mas os poucos são muitos, tantos que
já se pretende
criar um tribunal propositadamente para este tipo de crimes e
descongestionar os restantes
tribunais<http://tek.sapo.pt/noticias/negocios/governo_avanca_com_criacao_de_tribunal_para_p_1060172.html>.
Por enquanto a maioria aparentam ser crimes em que os autores tentam lucrar
com vendas de cópias, portanto condenações bem aplicadas. Quanto ao dizer
que estes processos não dão em nada por não serem crimes de sangue, estará a
querer indicar-se que estes deveriam ser mais graves que a própria vida
humana?

Quanto ao facto indicado de os juízes e procuradores do Ministério Público
estarem pouco esclarecidos para esta temática da “Pirataria Informática”,
este é irrelevante. Eles devem apenas apurar o grau de culpabilidade
aplicando a lei, não devendo ultrapassar as suas competências. Se a lei se
encontrar incorrecta ou incompleta, esta deverá ser contestada pelos
cidadãos e corrigida pelos órgãos competentes, não cabendo essa tarefa aos
juízes.

Diz ainda o entrevistado que a a pirataria de software é mais gravosa que a
própria droga… Sinceramente, desde quando a utilização ilegal de software
pirata provoca danos irreparáveis nas pessoas? O consumo de droga é um
flagelo enorme e afirmações como estas só provam o grau de desespero e
desonestidade intelectual a que se recorre ao tentar proteger o verdadeiro
interesse de quem as profere, o dinheiro.

 <http://partidopiratapt.eu/wp-content/uploads/2010/07/opensource_logo.gif>Quanto
à opinião do convidado sobre o nosso movimento (PPP), é dito a “esses
senhores” (nós) que “a ciência para fazer software não se apanha das
árvores” e que “obriga a muito estudo, obriga a mentes brilhantes, e obriga
a muito investimento”.
Pois bem, os “senhores” deste movimento, sobretudo parte dos membros que
constituem o núcleo mais activo do mesmo, trabalham na área de Engenharia
Informática, logo não precisam deste tipo de lições sobre a criação de
software, mas agradecem o elogio [image: ;)] .

Aproveitando também as palavras de membros recém-chegados à nossa
comunidade, “mentes brilhantes” não podem ser confundidas com lucros
astronómicos de empresas que multiplicam por mil o valor real das coisas!

Hoje em dia, muitas dessas mentes investem horas dos seus tempos livres para
projectos de software gratuito partilhando o seu conhecimento científico e
aprendendo coisas novas com os seus pares, produzindo ao mesmo tempo
alternativas de grande qualidade a quase todos os tipos de software
comercial existente. Este espírito, que tudo tem a ver com o PPP, não só
ajuda em todos esses aspectos pessoais referidos pelo convidado como ainda
incentiva a evolução científica, aumentando sempre a barra a atingir pelo
software comercial para se manter viável.

O convidado poderia ter respondido directamente à questão ao invés de se
esquivar.

Concluindo, e com uma opinião que pode ser livremente copiada, já estamos
fartos de propagandas falaciosas, onde apenas se observa uma das faces da
moeda, a face onde variadas associações assentam com peles de cordeiro e
supostamente em prol de todos, quando na verdade apenas defendem os maiores
e os mais abastados. O que assistimos diariamente é a ataques
injustificáveis à livre propagação da cultura e do conhecimento. Estamos
cansados de interesses económicos de empresas que se recusam a adaptar-se às
realidades do tempo em que vivemos, onde pretendem transformar a grande
maioria da população mundial em criminosos. Estamos fartos de ver direitos
fundamentais atacados e reduzidos ou anulados para proteger quem não se
actualiza. Em nome de interesses comerciais, quer-se invadir a nossa
privacidade e sabotar o direito à comunicação. E qual a razão? Porque
paranoicamente se assume que eventualmente nessas comunicações privadas
poderá vir a existir uma partilha de conteúdos que infrinjam direitos de
autor.

*PS*: Caso ainda não tenha reparado, aproveite para visualizar o nosso *
manifesto* <http://partidopiratapt.eu/politica/manifesto-ppp>.
Atentamente
Miguel Costa

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